A Atrocidade

Gabriel Figueiraes

Na aurora, o jovem Cauã, que na noite foi-s’embora, voltou à Oca aos berros: “Eu vi! Da Serra De-Lá, eu vi!”. 

O plural atrasou em responder, ainda se despertando das redes, confuso pelas vozes da noite. Uns murmúrios começaram, nenhum tornou tom pra Cauã. Já desperto, fiquei pensativo; entreouvindo. Cauã me fitava direto, queria de mim retruco, contesta ou mesmo aprôvo. M’ergui, saindo do calor de Maya. Todos seguiram meu levantar com os olhos.

– “Quê te viu, piá?”

– “Pareciam nós, mas diferem.”

– “Outro povo do envolto?”

– “Nada conhecido.”

Era o broto do ódio e da atrocidade que tavam por vir, mesmo sem a gente ter noção, me lembro bem. Passou tempo pra ter contato direto, luas. Teve gente do plural que nem crer no menino Cauã num creu, doideira foi o que chamaram. Antes fosse. Queriam qu’eu declarasse o que era do que deixava de ser, mas certeza num tive, abstive. 

O piá Cauã ficou com eco de mentiroso, se apartaram dele; até eu também fiz, e ele foi ficando toco oco, morto no meio do plural vivo. “Ubirajara, crê nimim. Te juro qu’eu não tô louco”. Não cri, combati. Assim todos fizeram. Do plural, Cauã foi separando. Me entristeci, mas fiquei parado. Maya defendia o filho: “Deixa de cisma! Cauã nunca foi de doidera”, me enfurecia. Talvez, isso que me fez opor à vinda da atrocidade por tanto tempo.

Foi quando Piatã desesteve na Oca que o plural se assustou, se repartiu. Eu mesmo lembro do frio que meu ventre sentiu. Os mais joviais tomaram o partido de Cauã; os mais vividos – me ajunto – contrastaram. Mesmo assim, na manhã, saímos todos a procurar Piatã, parte do plural. Ele não era de fácil encontro, não; saímos no comecinho-da-luz, ficamos até começo de tarde. Quando encontramos tínhamos fome, mas só de ver a cena ela passou com o vento. Te digo: não era nada bonito. Aquilo não era feito de animal comum, aquilo era fruto do puro ódio. Sei lá eu a bondade da sua tribo, mas sei que não difere demais da bondade que carrega a minha; ou melhor digo: carregou. Depelaram o Piatã que nem fazemos com as galinhas, maior violência pra homem; abriram até o cocuruto do pobre coitado. Aquilo era o mal, só o mal, o puro mal.

O fogueiral de despedida de Piatã foi um marco. Dali em diante, dúvida não teve mais. Os jovens ainda comemoraram suas certezas, juvenice. Logo perceberam que com o crescer da atrocidade todos nós estávamos em perigo. Voltamos a ser o plural. Os atrozes eram uma doença pra nossa floresta. O Sol, nossa crença, se escondia por detrás das nuvens. Os dias perdiam cor, as plantações já não rendiam. “Precisamos livrar nossa terra dessa doença!”, dizia o plural.

Dia cá, desaparecia um dos nossos; dia lá, o plural se deparava com mais uma atrocidade. Não teve quem sem medo. Um inimigo sem cara, talhado no puro ódio. O plural entrou em guerra, uma guerra invisível, que nem o ar que inspiramos; que foi se pesando. Os pesadelos nas noites brotavam como cogumelos da terra; contrastante, as brincadeiras entre eu e Maya se escasseavam. O medo era de todos. E como cês sabem: medo com tempo vira ódio.

Decretei que o plural precisava de defesa. Agora na noite, nossos vigias rodiziados defendiam o plural do escuro. Começamos a apontar as flechas e lanças para a atrocidade. Treinávamos a arte da guerra como nunca antes. Cheguei até a me ajuntar mais com Cauã, ensinava a ele meus saberes; Cauã me copiava o movimento com a lança. Em dias vitoriosos, pontuais, quando um dos nossos sobrevivia ao ataque, todos do plural exalavam amor, um respiro da dor onde estávamos afundados. Libertador. Nos juntamos, todos em um só.

Um dia, treinava com Cauã, atrouxava com um tecido uma anta no ombro; era meio-de-tarde neblinoso, me lembro; como esquecer? Passeamos no Reclive Boa-Vista, vista boa foi o que eu não tive. Dois atrozes, de pele toda tapada, cara anuviada. Cauã errou a mira de flecha. Trovejou feio, sem luz. Cauã caiu furado, sangrante. Meu olho se avermelhou. Eu, que sempre fui bom de lança, furei os dois de pronto; fiz largarem suas armas-de-trovão; mas não permiti que morressem. Fiz vingar, não só meu bom filho, como todos que os atrozes tiraram do plural. Matei, e matei contente; as andorinhas azuladas denunciaram para a floresta toda. E depois de passar o ânimo de matar, fui atrás dos suspiros farfalhados de piá Cauã, meu bom filho: “Não quero ir m’embora, papa. Inda tenho muito a olhar nessa vida”. Chorou. Chorei junto. Eu disse que ainda ia ver a gente ganhar essa guerra, pois quando se morre, vira estrela. Ele sorriu, mas nada respondeu. Vi morrer diante dos meus olhos o futuro do plural.

Tive de voltar pra vila e pedir ajuda. Trouxemos o corpo de meu bom filho passado, a trouxa de anta e os restos dos dois atrozes. Reinava o luto, amargado pelo ódio. Não consegui conversar com Maya, parecia inundada de malestar, nunca vi. Queimamos Cauã primeiro, para ir de volta à luz do Sol, nossa origem. Já íamos pôr fogo nos atrozes também, mas Maya engoliu o choro e interrompeu:

– “Esses atrozes não merecem se ajuntar na luz do Sol, nem humanos são!”

O plural concordou, mas logo levantou uma dúvida: “O que são os atrozes?”. Ficamos encucados. Parecem mais conosco do que com o resto dos animais da floresta e, ao mesmo tempo, diferem. E diferem deveras. A gente nunca faria tamanhas atrocidades nem taparíamos nossos corpos com tecido. Os atrozes não podem ser humanos, vieram de outro lugar… A pergunta só se calou quando tiramos seus tecidos para fitar as carcaças: são peludos, pele anuviada, cabelos tortos; com certeza não são humanos. Até fizemos testes: abrimos mais cortes neles, era tudo diferente; e eles nem boiaram quando a gente jogou no rio; só seguiram o fluxo entruncado no pé-do-leito, com as pedras rolantes.

Parecia uma caçada. Tinha dia que o plural ganhava, tinha dia que o plural chorava. Os atrozes continuavam fazendo atrocidades, envenenavam nossa terra sagrada, e ainda por cima não se cansavam de ir atrás de nós; e o plural, que sempre foi forte, devolvia com a mesma força contra os filhos do ódio. Era assombroso. Maya oscilava entre ira e tristeza. Todos nós. A gente só se ajuntava pra treinar guerra e fazer sacrifício de animal por sangue atroz. As festas vitoriosas, de tão doces, chegavam a me amargar. Os atrozes ameaçavam todas as delícias do plural. Ninguém valoriza a paz até entrar em guerra.

Segue o pior, no pesar de me pesar o coração: ia indo, fim-do-dia comum, andando de músculo tenso, mas começou o fuzuê quando ouvi de longe os trovões. Todo mundo ficou em alerta. Suoresfriado. Logo, apareceu Kaique correndo com mancadas, perna empapada de sangue.

– “A atrocidade vem vindo!”

Trovejou de novo. Kaique caiu na nossa frente, sem vida. Ouvimos uma gritaria vindo; foi um calafrio plural; cada qual se armou: se esticaram os arcos contra a atrocidade por vir. Tinha certeza que estávamos preparados; que nossa união seria mais forte do que qualquer ódio. No começo enchi meu peito de glória ao ver os atrozes caindo furados ao gume de nossas flechas. Ensanguentados, relinchavam como nossas caças; o vermelho forte. Muita morte, senti vida. E então, a chuva; pencas. Os trovões aumentaram, nossas miras turvaram. Com esses mesmos olhos que lhes fito agora, vi o plural cair como gotas d’água. Plop, plop; um por um. A atrocidade não tinha receio frente ao mal, matava sem distinção: criança, mulher e homem. Toda minha vida foi apagada pelos atrozes. Tomei trovão, raspão no tronco; fiz ronco ao cair; vi sangue meu sair. Acertei flechadas do chão, entre minhas arquejadas. Forcei o sono para vários dos atrozes; caíam duros; e nem por isso o plural deixava de morrer, aos bandos. Vi Maya morrer sem nem conseguir diferenciar as minhas lágrimas da chuva; cerrou os olhos cansados de luta; abraçando o seu vazio sangrento mesmeado de como abraçou a mim. Flechei ainda mais, sangue nos olhos, sangue nos gumes. “Se vou m’embora dessa vida levo muitos comigo!”, cheguei a gritar. A chuva me esfriou, fraquejou os braços; meu sangue seguiu a corrente. O arco pesou, me puxou ao chão; meus olhos pestanejavam. Me rastejei em últimos esforços até os braços frios de Maya. Fitei, longo tempo pareceu; já não tinha sua luz, essa virou estrela; era turva feito rio-com-chuva. As pencas ainda me batiam, penosas. O chão puxou a cabeça: vi de lado um atroz sofrente, com os braços confortantes a outro atroz flechado. Berrava: pinto longe da galinha. Atroz sofre? Até anta sofre, por que não sofreria? É melhor que sofra! Queria continuar vendo sua dor, mas o sono me chamava, forçava meus olhos a virar, minhas pálpebras a ajuntar. Era minha hora de ir, no caminho de estrela seguir; tinha certeza, mas acordei na meia-noite.

Confuso, desmatado, fitei o céu estrelado. Todo plural brilhava, suplicava vingança, um desejo estimado. Foi por isso que eu desmorri! Me levantei com dor, uma dor iluminada, mesmo que no escuro. Meti o pé dali, não tinha porque ficar naquele cemitério plural. Varei a noite buscando vocês, nemelixando pros mosquitos. Só agora foi que encontrei. A razão de vir aqui em plena noite? Motivo da contagem? Explico: avisar procês do perigo que sempre está por vir na aurora, escondido nas sombras de cada serra. A atrocidade não tem pena e continuará vindo atrás de nós enquanto estivermos vivos. Gasto agora os últimos ares de meu doer: a melhor defesa é o ataque. Façam o povo atroz sofrer!

Sobre o Autor

Amante da literatura e filosofia. Participante da Academia de Letras do Mackenzie (ALEMACK). Três publicações: uma no Jornal Prédio 3, de título Gato Preto; mesmo texto que me fez ganhar o concurso Epopéia Podcast; e, por fim, tive meu ensaio filosófico, “Melancolia, a doença racional”, publicado na revista de ensaios da Escola Vera Cruz. Instagram:@gabrielfigueiraes. Site: medium.com/@tcpangs