Desavença

Julio Tude d´Avila

“Mete na minha bucetinha caralho, vai gostoso”. Eu não sei bem o que fazer aqui. Queria olhar nos olhos dela sem que ela olhasse de volta. O cheiro desse quarto é ao mesmo tempo estranho e familiar. Ela percebe que algo está fora de ordem, mas sua etiqueta só lhe permite beijar meu pescoço. Nervosa, se desespera: “quer comer meu cu?” “Tá bom”, eu digo, e espero ela virar de costas. “Sobe um pouco”, falo com inquietude. A camisinha tira boa parte do atrito e eu imagino como seria se fosse uma de pele de carneiro. Quem será que teve essa ideia? Quem olhou para uma ovelha e pensou “quem sabe se…”? Seria uma tradição antiga? Ela demonstra dor e resolvo fechar os olhos. Na minha cabeça, surgem imagens naturalmente, casas enormes e vazias, uma menina de boné pra trás. As coisas começam a funcionar. Ela percebe, e engole a dor. Transar num sofá, na cozinha, um grupo de homens negros trazendo os móveis, uma boca sorridente ajoelhada, gargarejo com esperma, táxi censurado, madrasta, mãe, enteada, humilhação e chantagem. Termino, e nós ficamos abraçados. Ela encosta a cabeça no meu peito, e olha pra frente. O silêncio deve dizer alguma coisa, que interpretamos em termos opostos.

A masturbação agora está esquisita. Entre uma coisa e outra, parece um meio termo. 

Ela me liga. Estranha a câmera que levo. Digo que me dá tesão e que ela parece uma artista de cinema. Com ela rebolando em mim, resolvo olhar pela lente. Sinto uma força imensa me atravessar, ela percebe e incrementa a performance. Olha diretamente pra câmera e fala com ela. Tenho vontade de tirar meu pau e bater uma, mas desse jeito tá funcionando perfeitamente também. Ela pede pra eu gozar, e obedeço. Deitados, não vejo nada em suas pupilas, e conseguimos nos encarar apaixonadamente. 

A masturbação agora retorna, com força. Incessante, mal espero meu fôlego retornar para começar mais uma sessão. Riding, cowgirl. Esgoto minhas atrizes favoritas. Preciso de um acervo maior. 

Ligo pra ela. Parece apreciar o que fiz com meu quarto. “Quero outros ângulos de você”. Ela tira a roupa lentamente, em uma parcimônia frustrante. Peço pra ela acelerar. Estranhando, obedece. Perde a personalidade. Aproveito e vou pedindo novas posições, todas que consigo lembrar. Digo que estou com dor de barriga e ela vai embora. Testo o acervo. Não funciona. Precisa ser eu na câmera. Preciso ver pela câmera. “Tomei um estomazil e a dor sumiu kkkkk”, escrevo. Ela volta ansiosa. Considero se ela estaria disposta a pintar o cabelo algumas vezes, mas decido que é melhor arranjar outras. Repetimos todas as posições, dessa vez com a câmera em mãos. Ela percebe que eu nem estou filmando, só olhando pela lente. Finjo que me ofendo, digo que meus pais falam a mesma coisa dos meus filmes e peço pra ela sair, entre soluços.

Percebo que não há limite nisso. Posso me transportar pra qualquer lugar, qualquer horizonte, qualquer mundo, se filmar ele de pau duro. Posso abri-lo na minha tela e estarei lá, porque já estive.

Ligo para outra, blogueira, ruiva, mais alta. Ela sabe quem é meu pai. Topa a ideia “tesuda”, me encontra usando uma roupa da marca dele. Se masturba pra mim em todos os cantos obscuros do parque. Um esquilo passa na frente e acompanho-o com meus olhos. As coisas estranhamente funcionam. Viro a noite no site da National Geographic e do Ibirapuera, que descubro ter sido o parque mais fotografado do mundo ano passado. Pesquiso a localização no Instagram e a empregada passa a semana toda deixando minha comida na porta. Pentelhos, pelos de capivaras, desagua um riacho em forma de mulher.

A aula de Biologia começa a me deixar incrivelmente duro, e dou aos banheiros da escola um uso original. Serei universal. 

Filmo mulheres em planetários, na Pinacoteca, em chapadas, planícies, em cima de mapas-múndi, em museus, e sofro para conectá-las com matemática e química, então acabo só filmando as meninas da minha sala, tentando deixar as equações do quadro à mostra.

Trago mulheres para me excitarem e as dispenso, deixando minha lente capturar tudo ao redor. Não há objeto que não me pertença, ser vivo que não se submeta, clima que não me deixe arrepiado. Minha lente traduz tudo para mim, e eu obedeço.

Em breve vou ter tudo. Poderei ser tudo. Em qualquer lugar. Eternamente.

Sobre o Autor

Estudante, 21 anos