No calor da emoção

Adriano B. Espíndola Santos

Caótico. Sim, por mais que eu tentasse amenizar, ou tentasse me esconder, Ronaldo era ca-ó-ti-co. Um cara que entrou no meu trabalho, segurando um buquê, e, por não ser atendido, jogou-o na cara do meu chefe, que estava entrando no exato momento, só pode ser absolutamente caótico e perigoso. Depois de tudo, quando voltei para casa, o santo ainda me ligou para dizer que não tinha atirado o buquê no meu chefe porque eu não o atendi, e sim porque queria se vingar por mim; porque, tolamente, eu teria dito que não aguentava os melindres e as exigências de um sujeito de mal com o mundo e que vive de veneta. “Foi no calor da emoção, meu amor!”. Hilário, não? Os meus problemas sou eu quem tem de resolver. Eu não acreditava mais em nenhuma palavra que saía da boca de Ronaldo, sinceramente; me fartei disso faz tempo. Ele havia passado dos limites umas duzentas vezes, ou mais. Além disso, eu nunca tive propensão para ser mãe. Já o avisei que não queria ter filho, no começo do nosso relacionamento. E ele insistia em se portar como um bebezão birrento; e explosivo, o que era pior. Veja bem, eu estava há cinco meses tentando me esquivar do dito cujo, e ele se achava no direito de me cercar. Ele alegava que teria o direito de se explicar, como se eu fosse uma instância superior, um tribunal de apelação. Ora, um sujeito autodestrutivo quer se explicar de quê?! Estava tudo dito e provado. Ele teve todas as chances. E o que fez? Destruiu-me! Para falar a verdade, se eu tivesse dado uma brecha, eu achava muito certo, como dois mais dois são quatro, que o Ronaldo partiria para a chantagem emocional; que foi abandonado muito novo pelos pais; que não tinha ninguém, a não ser a mãe adotiva, que estava com oitenta anos, com um pé na cova; e que os nossos anos dourados não poderiam ser jogados no lixo assim. Essa conversa é antiga. Ele não se explicaria coisíssima nenhuma; ele contaria tudo outra vez, o que eu já sei de trás para a frente; e, no fim, diria, com a cara mais lavada, que mudaria – decerto rindo por dentro de satisfação por me dobrar. Não. A minha vida, depois que conheci Ronaldo, vinha caindo ladeira abaixo. Houve um tempo em que eu me apiedei das suas dores, tomei-as como minhas, e o resultado: fiquei com uma tremenda depressão – e ele, posso acreditar, feliz por me ter nas mãos, atada ao seu perímetro de sadismo. Eu sentia que Ronaldo Muniz, o grande visionário, o megaempresário do futuro – falo “futuro” porque ele só fazia projeções, de se tornar rico, e não saíam do papel –, precisava de alguém para subir em cima e se colocar no topo. No começo, eu tive tanta pena de sua condição, por não ter “ninguém”, nem mesmo um amigo, que me sujeitava a passar longas horas ouvindo os bodejos, as reclamações, as encrencas, e, para o estimular, fazia com que se sentisse importante, dono de si, capaz. Em troca, ele me cerrou a esse mundinho de flagelos inventados; flagelos fomentados por sua cabeça doentia; como se todos estivessem contra ele. No dia em que sugeri que buscasse um profissional, psiquiatra ou psicólogo, ele fez questão de demonstrar que estava muito triste, magoado, por eu inferir que ele estaria louco. Para descontar a frustração e a raiva, quebrou uma garrafa de vinho tinto na parede da minha sala, que, por sua vez, gravou uma obra de arte: uma imensa mancha de sangue na tela branca. Esse foi o dia em que eu me tranquei no banheiro e a manhã raiou com ele pregado na porta, suplicando para que eu saísse; que estava inflamado pelos problemas no trabalho; que era um excesso justificável “pelo calor da emoção”. Naquele tempo, pensava, sim, que ele precisava de um apoio, um apoio que eu jamais poderia lhe dar. Mas, com um ano e meio de relacionamento abusivo, quase para eu mesma enlouquecer, vi que ele necessitava mais, uma internação, algo que o tirasse de circulação. Ele dizia que me amava, contudo, a cada dia, se portava como um carrasco a quebrar, com um martelo, falange por falange dos meus dedos dos pés e das mãos, a ponto de eu me entregar e achar que a minha dor seria um caminho para a sua redenção. Desde sábado da semana atrasada, precisamente, ele havia mudado a estratégia, qual um João de deus dos infernos, e passava por mim deixando rastros. O último foi bem peculiar: ligou para a Sônia, minha melhor amiga, fingindo ser funcionário de uma dessas empresas famosas de eletrodomésticos, para contar que precisava confirmar o seu endereço; que havia uma encomenda, “um presente”, que devia ser entregue em mãos. Sônia, bobinha, caiu fácil e recebeu uma caixa contendo uma galinha morta, com um bilhete escrito: “Se afaste de Sara ou também vai morrer!”. Ela me ligou desesperada, chorando copiosamente, imaginando que estaríamos mortas logo mais. Fomos à delegacia da mulher. Fizemos um boletim de ocorrência e, para o meu espanto, quando mostrei a foto do canalha, puxaram os dados e identificaram Moisés de Farias Lucena. Ou seja, ele usava documentos falsos; fizera até procedimentos de cirurgia plástica para mudar as expressões. Eu convivia com um bandido perigosíssimo. Havia uma ficha criminal extensa, por agressão, estelionato e maus tratos a mulheres: quinze; inclusive um mandado de prisão em aberto. “Meu Deus!”, pensei na hora, a Sônia tinha toda a razão, ele poderia ter nos matado. Colhi as imagens de uma empresa na frente da casa da Sônia e, para baratinar o juízo falho, quem entregara era, de fato, um rapaz dessas empresas que relatei. O cara estava vestido, dos pés à cabeça, como funcionário; com máscara e óculos escuros. Pela altura e pelo formato do corpo, podia supor ser o bandido. Estávamos, as duas, trancafiadas num esconderijo na Serra. Tive de pedir licença do trabalho. A notícia que possuíamos era que o sujeito estava “em local incerto e não sabido”. Mas não. Na última terça, numa noite silenciosa, fora do normal, eu escutei passos e mexidos atrás da casa. Saí e, de imediato, sem pestanejar, sentindo o faro da maldição, disparei um único tiro, com um trinta e oito velho do meu pai, policial reformado; com uma bala de prata. No calor da emoção, abati o canalha. Vi-o se estrebuchar no chão. Caso dado como legítima defesa. Sem peso na consciência. Total absolvição. 

Sobre o Autor

Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora com a Revista Samizdat. Tem textos em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.