Nunca Houve Coisa Mais Bela

Felipe Alves

Como me esforço para não reparar. Aí, bem no ponto! Vamos seguir pela travessa, bem de va ga ri nho. Puxando a fumaça soltando em direção à lua. Veja ela e traseiro, do canto, rebolando com a saia xadrez, fingindo que existe outra coisa pra se olhar. Risos. Deus me tenha! De tudo, não deixo de ser o sacana, o esnobe filho da puta a passear. Cigarro na boca, vinho na mão. Desgosto. Caminho livre, farol verde, passo lento, fingindo não reparar. Ela vem, atravessa, começa a olhar. E se eu for um estuprador, ela pensa, ou no mínimo deve pensar. Dodói da cabeça aos pés, mas não ao ponto de incomodar, que o diabo me permita uma pergunta rápida, cordialidade ao acaso, olhar fixado, passada da mão no cabelo, deslizar do lábio inferior, ou da licença, por favor, que é isso, pode me indicar onde fica o Shopping, o metrô, o bar mais próximo, pois estou morrendo por uma cerveja, uma pinguinha, uma carreira de pó qualquer. Um rato atravessa meu caminho, ó meu deus! A diferença entre a sarjeta e o laboratório é a ausência de um propósito, como dizem por lá, naqueles canais cultos. Meu amigo, Crusoé, terapeuta de casais, solteirão, barrigudo, falido e viciado em codeína, sempre me diz para não buscar mulher que se ande depois das onze pelos cantos da República. Vai acabar esfaqueado, sair no jornal todo estripado e cagado. Mas saca essa! Rah! O rato zigzagueia para além da calçada e invade o espaço da nossa querida danada. Ela o amaldiçoa. Senhoras e senhores, temos uma história para essa noite! Que deus abençoe todos os ratos e ratazanas dessa cidade.

Cadência.

Esse tipo de coisa não se aprende na escola.

Estávamos acima de uma portinha, pelos cantos do Vale. Venha, desça pelo Paiçandu, vai nos encontrar. Quem era ela? Uma Silva. Um retrato qualquer de alguém que estava por aí. Alguém que saliva, que mija, que respira e esquenta a bunda com um tapa bem dado de vez em quando. O primeiro nome que se foda. Silva, fiquemos nisso.

E quem eu era? O cara que viu ela e viu o rato e puxou assunto. Estoco bebida em casa para nunca faltar, moro no Jardim ________ complete como queira e não pretendo me enturmar com ninguém. Existe desagrado em ser um qualquer? Que eu saiba você também é. Risos.

Na portinha, acima dela, havia um bar. Espaço largo, cerveja na média da região e gente velha procurando putaria. E Silva, o que procurava? Um pingo de dignidade nessa vida, eu aposto. Ser tratada com respeito, ter um nome próprio a ser apresentado em primeiro lugar. Mas que seja Silva, pois não passa disso e projeta toda a sua rebeldia nesse ralo embutido na parede da nossa existência, por onde só passa a profunda arritmia metacompulsória que o diabo nos faz carregar. De inferno estamos fartos, meu irmão que o diga:

Três tiros na cabeça, estrangulamento, mutilação genital, arrombamento anal, dedo em carne com as unhas enfiadas pela goela. No enterro eu não fui, estava drogado, com a cabeça enfiada em uma lixeira do Arouche. Com a boca escancarada, entre camisinhas usadas, espinhas de peixe e frutas podres.

Mas por fora o papo era bom, dócil, provocativo. Por dentro as baratas respeitavelmente percorriam meu cadáver. A cerveja veio, fui buscar o pó. Deus abençoe nossos dias de folga. Trabalho das dez as seis. Trabalho para continuar a afundar a vida  em profundo desprezo com a minha própria capacidade de me sentir destronado. Me prometeram um reino, me entregaram um peito macio, uma cama larga para rolar, cagar e ser limpo à talco e creme, mas no fim rolei pela terra em estrume, pela catinga do transporte, pelo bolor do armário e o fedor do bueiro na frente da janelinha.

Quem vai contar minha história? Um dia algum filho da puta prometeu que a vida habitava naqueles que não existiam aos olhos do mundo. Quem vê expectativa na miséria se contenta em apreciar o desumano. Estes, meus camaradas, são os mais próximos do humanismo absoluto! Glorifiquem o terror existencial aglutinando o malabarismo do nosso ponto ômega. Quebrem os algoritmos da servidão eucêntrica.  Silva, você aceita partilhar um pino e meio? Você aceita ventilar essa tal sujeira enfarinhada, moída aos laxantes, travestida de uma sobra de algo que um dia foi Medellín? Fodido o dito cujo do Pablo Escobar. Queria ter metido bala em tanto filho da puta quanto ele! Rah! Risos. Silva gesticula insegurança. Pois vamos, deixe disso, vamos de curtição. A cena é ainda mais rápida do que a narrativa. Dois segundos para a coisa toda e que seja, fui até o barbudo da mesa vizinha pedir por um pininho, mas de bom grano, não é? Ei, vinte? Ei o almoço de amanha fica por conta da curtição de hoje? E eu não penso que posso acabar cagado e de pau mole para foder com a Silva. Se é que ela se importa, que cague em mim também! Deixemos de nos santificar, já que o altar se encontra cheio.

Amigo, você sabe qual o maior barato de uma noite em São Paulo? Você nunca sabe onde ela termina. Pode acabar uma da manhã, em uma cama de solteiro cheia de ácaros e um belo par de pernas, ou às duas da tarde em um maravilhoso boteco com dois malucos falando sobre a porra da época em que vendiam pilha no farol da Tiradentes. 

E foi-se o pó. Alucinei. Ela embriagou. Fomos passear pela Luz, fomos atrás de uma curtição qualquer. Existo para experimentar o que mais degradante possa me acontecer. Silva não vê, está entretida na lorota que já está bem ensaiada. Ei, se abra, disse minha mãe antes que eu saísse da escola. Depois foi só pedido pra terapia, pra reabilitação, para a igreja e o Vaticano e todas as capelas da Europa! Silva esnoba, pede para que eu lhe entregue algum resto de loucura ocasional. Eu vejo gente jogada, cachimbo de crack de boca em boca. Piscadelas, pormenores e peixinhos dourados em aquários com água negra. Órbitas perdidas nos infernos da podridão. Por que você insiste em andar assim, no nada, no vazio? Não vê, quero apenas jogar carvão na máquina à vapor que é meu cérebro em decomposição? Eu quero assombrar, chocar, esguichar bizarrice e sandice disfarçada de labuta espiritual. Quem vai evoluir se esconde nos escafandros das enfermidades mentais. Adoeça para que precise dos supositórios sociais. Dos carinhos maternais daquele híbrido de abutre e mamadeira. Consuma minha carne, desfalque meu caminhar. Brote, como um tumor, na pele que cobre meu peito. Dissolva e escalpele meu crânio. Bem aventurados os que definham e engordam os vermes. Qualquer notícia é palpável nessa hipótese desagradável que é a terra girar. Planifiquem o planeta, deixem-no rodar pelo além-sideral. Silva está aborrecida, mora no Carrão. Eu estou aborrecido, quero foder essa desvairada antes que me lembre de seu primeiro nome. Anonimato. As ruas da luz, uns tantos casos e acasos nas paredes defecadas. Luz estranha, parva espuma que escapa pelo canto da boca. Os minutos desgastam e estreitam o corredor que vai, de tanto em tanto, me empurrando porta pra fora. Adeus!

A danada quer mais vinho, quer um mercadinho, uma adega, um espaço que nos oriente a nos desorientar. E eu pego, tremendo, vomitando pensamentos! Desgraça! O papo vai, os beijos vêm. Olha só, não me entenda mal, existe sangue sendo sugado nessa história. Bendita hora que comecei essa coisa toda com o rato urbano. Na minha casa tem vinho, que eu me lembre. Se eu me lembro? Claro, comprei com o dinheiro daquela vagabundagem que faço pela noite. Passo a mão em algumas carteiras além do contrato informal. Se tiver reclamação, fala com o Mestre. O bigodudo lá do caixa. Frite meus órgãos, comandante, pois estamos chegando ao espaço!

A filha da puta não me chega jogando a camisa no sofá? O cachorro até latiu com a audácia! A saia xadrez eu quase rasgo no dente. E onde está o vinho? Eu aponto um armário, ela abre o outro lado. Fotos caem. Quem são aqueles? Colegas da escola, em preto e branco. E que fazem eles na porta ao lado de onde guardo o vinho? Rostos translúcidos, apagados na memória. Embarco no traseiro da Silva e, vez ou outra, eu dou uma espiada nas fotos que ela nem fez questão de arrumar. Ela de quarto, bebendo o vinho igual mamadeira. Eu em pé, na penumbra, vendo a sombra do cão atrás da porta da lavanderia. Ela por cima, eu fisgando o teto, tratando bem, falando uma sacanagem das boas. Sinto minhas próprias rugas se desenvolvendo. Silva sente o aperto de não estar bêbada o suficiente pra lidar com um pária como eu. Não da pra ver a foto de cima dessa desgraçada, apenas os dentinhos tortos que ela tem na boca, batendo uns nos outros, igual ao trote de cavalo manco. Risos! Salvo o engano, já vem o amanhecer e percebo que não tive tempo de conviver um pouco comigo mesmo. Silva berra qualquer coisa e eu ergo seu corpo em fissura com meu desgosto. Sinto prazer em me degenerar. Como dilata meu falo essa desgraça asquerosa de estar a viver. Quem dera alguém pudesse assistir de dentro, sabendo o que se passava em um momento feliz. Cuspo na cara de Silva, mas finjo bem a intenção sexual. Ela morde meu pescoço, arranha as costas.

Castigo.

Envergo o corpo e a despejo na mesa, feito banquete para minhas próprias traças carnais. Devoro-me por dentro e ela me da coice, pra ferir e adestrar. Para ela sou a silhueta do emaranhado cotidiano. Uma figura que tem a função primária de ensacar a vara em sua deselegância. Cômico. Ela torna a dar o coice. Ela vira. Ela me encara, puxa o cordãozinho de ouro caído em meu pescoço. Estapeia minha cara com vontade. O prazer aumenta. Nunca apanhou? Já, mas não com tanta vontade. Seja lá que diabo esteja se passando com Silva, eu sou aquele que recebe a descarga. Não quero saber, não me importo! Ser o espelho e magnetizador do descarrego alheio me parece excitante. Então, que venha o véu de malícia me açoitar. Se eu sinto nojo, quero ser reflexo do nojo alheio. Se eu apodreço por dentro e sigo em sorrisos apaziguadores por fora, que essa nossa vermificação interna seja múltipla no jogo erótico da violência. Ela pede que eu bata em sua face. Me nego e reforço a dor que desejo sentir. Me chute, enfie esse joelho no meio nas minhas pernas, bem no meio! Arranhe meus globos oculares. Enfie o dedo na minha goela! Rah! Risos! Que lambança, que nojo psicológico que me proponho a sentir. Mais agressão alguma me faz sossegar. Que tivesse uma faca pra me cortar.

Silva, já em êxtase cósmico, une as mãos em meu pescoço e a respiração vai sumindo. Aos poucos um formigamento percorre as veias torácicas e as mãos amolecem. Isso me transmite o maior prazer possível. É o retalhamento sagrado através da profanação. Ainda na mesa, puxo o cinto para fora da calça pendida em meus joelhos e entrego a Silva. Tome use isso. Tome! Vamos! E ela obedece. E aperta. E eu peço mais. Mais. Mais. Desgraça! Nem voz me resta para pedir, mas a mão ajuda a puxar. A fivela finca na pele e o sangue começa a escorrer. Quero um espelho para me olhar. Que cena! Eu de joelhos, olhos fechados sentindo a vida se esvair. Ela em pé, sugando a vitalidade pelo castigo que me veio. As fotos derrubadas, logo abaixo de mim, molhadas por tudo que se possa permitir. Sangue, suor, sêmen e lágrimas. Nunca houve coisa mais bela.

Sobre o Autor

Felipe Alves tem 24 anos, é comunicólogo com atuação na produção de eventos culturais desde 2014 e fotógrafo por hobbie. Publica textos e livros de forma independente na web desde 2015.