Palafita

Santiago Segundo

ela está lá de novo. pouca maquiagem, cabelo preto, olheiras, depressiva. a base de um inferno gelado que consumo no meu canto. um canto de potências e amnesia. poderia aqui desmembrar como nos conhecemos – se é que nos conhecemos. não importa. ela pulsa. uma bactéria em citocinese toma o espaço escuro e curvo do outro. células-mães por diversas quinas. nossos diálogos, se é que podemos colocar nesses termos, são breves promessas para um diálogo futuro. uma palafita de merda. não importa como está a água ou o lodo por debaixo da construção. então ela vem. diz o que sempre diz. depois beija minha mão. meu membro estremece, depois incha entre o pano da cueca e a parte interna da coxa. em alguns momentos a ereção é repentina, em outros em casa, no banheiro. sempre a mesma flâmula e o mesmo vento. devo estar fazendo algo errado. sou casado e a família é sagrada, não me esqueço disso. repetir é o ato máximo no intervalo entre a vida e a morte.

acabo com minha bebida. saí de casa para espairecer. pego meu cigarro e vou em direção à rua. o caminho não está livre. paro de andar. ela está sentada no chão da rua com um gordo com metade do cu para fora. eles estão juntos? ignoro o gordo e o cu. olho para ela de soslaio. não tenho intenção de ser notado. talvez eu tenha. há uma influência, da qual não falamos, que pessoas exercem sobre pessoas. refletida na lataria de um carro, olho para sua cabeça perpendicular ao pescoço, tendendo ao infinito, com um sorriso elegante e sinuoso tangenciado pelos seus opressores olhos escuros. ela e o gordo, o gordo e ela, eles estão juntos? não importa. somente a antiga vontade de dividir a própria história. continuo a andar. meus joelhos não são mais os mesmos. são duas pequenas cabeças abjetas. dois objetos que estralam e tremem. na rua, fumo o meu cigarro. olho um poste que produz uma espécie de lua artificial e extremamente próxima, com extensos borrões de sujeira no vidro. ela está por perto. meu coração delata a consciência de sua presença múltipla. ela está com esse gordo. por que mesmo saí de casa? em que século começou a perseguição é uma pergunta que me faço todos os dias quando acordo — uma pergunta que antecede o início. volto para a mesa. o coração diminui o batimento. um relógio. bebo, olho para frente e penso o que nos espera. há umidade nas paredes e lodo por todos os lados. mas o chão é de argila. o material suporta o fogo e o fogo suporta a noite. a água escura por debaixo do chão não importa, tampouco as ondas, com sal ou sem sal. entraremos nas cinzas, a casa vai tombar e entraremos no lodo. a profundeza é sempre a mesma, seca ou molhada. ela toda é um grande olhar, um olhar que se atêm nos ressentidos. milhões de olhos roubados. é tudo uma pequena parte de uma influência retroativa, e não sei para onde estamos indo. provavelmente eu a amo. então ela surge e senta na mesa, de frente para mim. pega minhas mãos. acaricia. soltamos ruídos. uma conversa mais do que antiga que permeia todo o resto da história humana. ela diz algo para me agradar. uma tentativa de controle. digo para bebermos algo juntos.

hoje não, preciso ir embora. estou com um amigo indispensável, ela diz.

tusso para me livrar de um pigarro, de uma vergonha. ela me pergunta se lembro de seu nome. Margarida, Margarida. o seu nome é Margarida.

eu não tenho nome.

ela pede um presente, um sonho bonito. trato como uma oferenda. faz parte do pacto. antes de ir embora, olho para o garçom. ele come as próprias melecas e chora. vou para casa. antes de qualquer ação, terei de pensar em alguma justificativa quando perguntarem. falarei que caí na rua, ou que sofri um acidente doméstico cozinhando minhas bolas. a faca é mais afiada que a borda do mundo. fecho a porta da cozinha para não acordar minha família. penso nos meus filhos. a ideia de gerar uma criança é chamada de reprodução. esse nome precede da ideia que estamos produzindo a nós mesmo. todos sabemos que isso não é verdade. estamos produzindo a espécie, e a espécie nega o lugar de qualquer um, até do ser mais monstruoso que seja. ou você ama ou não. entre as sombras da cozinha, pego uma faca de pão e corto um pedaço de meu lóbulo. coloco-o em um saco plástico limpo. translúcido. diáfano. eu sei onde ela mora. eu descobri algum tempo atrás. eu a segui. quando ela ver o meu autêntico produto, tenho certeza que vai sorrir.

Sobre o Autor

Santiago Segundo é escritor, publicou seu romance de estreia “Estômago” em 2017. Editor de Literatura da Revista USO. Pesquisa Franz Kafka e Literatura Cibernética como mestrando pela PUC-SP no programa de Literatura e Crítica Literária.