Poema depois do amor

João Mostazo

Acontece de as coisas serem assim;

de o clarão, às vezes escuro, detonar a bomba precoce

antes que o céu fique pronto.

Acontece de o buraco voltar

e a gente nem perceber que o ladrão entupiu,

que o tempo virou,

que ficou uma sacola pra trás, pendurada, cheia de sangue e de fezes falsas.

Se a gente pudesse se entender no grito,

se a gente pudesse se anular

no bafo, no mel, no sólido…

Mas o mundo conserva um silêncio

e você não descobriu

o porquê, nem o quê.

Seu canhão pessoal tem a todos por mímicos – você é imune.

Você está no meio de tudo.

Seu metrônomo puro sangue, seu coração, sua força…

De nada te serve entortar um facho de luz

como quem forja uma espada com os olhos.

Sobre o Autor

João Mostazo nasceu em São Paulo, em 12 de novembro de 1991. Poeta, dramaturgo e tradutor, escreveu e produziu os espetáculos Fauna Fácil de Bestas Simples (2015), A demência dos touros (2017) e Roda Morta: uma farsa psicótica (2018). É autor, ainda, das peças teatrais CÃES (2018) e Garra no meio do nada, com a qual foi finalista do prêmio Nascente em 2018, e do livro Poemas para morder a parede (editora 7Letras, 2020), do qual foram retirados os poemas aqui publicados.