USO digital

Espaço dedicado para a publicação de obras inéditas. Uma seção aberta para divulgação de novas autoras e autores no meio digital. Uma plataforma colaborativa para textos e artes visuais que não estão publicados nas edições impressas da Revista.

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Palafita

Santiago Segundo

Santiago Segundo é escritor, publicou seu romance de estreia “Estômago” em 2017. Editor de Literatura da Revista USO. Pesquisa Franz Kafka e Literatura Cibernética como mestrando pela PUC-SP no programa de Literatura e Crítica Literária.

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penso nos meus filhos. a ideia de gerar uma criança é chamada de reprodução. esse nome precede da ideia que estamos produzindo a nós mesmo. todos sabemos que isso não é verdade. estamos produzindo a espécie, e a espécie nega o lugar de qualquer um, até do ser mais monstruoso que seja. ou você ama ou não.

LEGADO

Francisco Gomes

Francisco Gomes (Campo Maior–PI, 1982). Vive em Teresina–PI. É poeta e músico. Autor do CD “Diafragma – Poemas em áudio” (formato físico, 2018; formato digital, 2020). Além de obras inéditas e em construção, publicou 4 livros, entre eles: Poemas Cuaze Sobre Poezias (FCMC, 2011) — 1º lugar na categoria Poesia do Concurso Literário Novos Autores/2008, através da Prefeitura de Teresina — e O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado (Multifoco, 2018). Edita o blog Pulso Poesia. Tem poemas em revistas, antologias, sites etc. Dedica-se cotidiana e arduamente à poesia, num trabalho de pesquisa, leitura, contemplação e escrita.

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O mundo em seu caos harmônico

continuará vivo pulsando futuro

e o desespero ao alcançar o toque

já não suspirará nem agredirá

a vontade voluntária do autoisolamento.

 

O mundo em seu amanhã tão esperado

irá expor as faces devastadas

: resquícios mútuos de medo

ainda nos acompanharão de mãos dadas

mesmo na certeza do não uso obrigatório

de máscaras descartáveis ou personalizadas.

 

Talvez Migliaccio pensasse num mundo diferente

do mundo que pensaria Michael McClure.

Talvez não.

Poema depois do amor

João Mostazo

João Mostazo nasceu em São Paulo, em 12 de novembro de 1991. Poeta, dramaturgo e tradutor, escreveu e produziu os espetáculos Fauna Fácil de Bestas Simples (2015), A demência dos touros (2017) e Roda Morta: uma farsa psicótica (2018). É autor, ainda, das peças teatrais CÃES (2018) e Garra no meio do nada, com a qual foi finalista do prêmio Nascente em 2018, e do livro Poemas para morder a parede (editora 7Letras, 2020), do qual foram retirados os poemas aqui publicados.

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Acontece de as coisas serem assim;

de o clarão, às vezes escuro, detonar a bomba precoce

antes que o céu fique pronto.

Acontece de o buraco voltar

e a gente nem perceber que o ladrão entupiu,

que o tempo virou,

que ficou uma sacola pra trás, pendurada, cheia de sangue e de fezes falsas.

 

Se a gente pudesse se entender no grito,

se a gente pudesse se anular

no bafo, no mel, no sólido…

Mas o mundo conserva um silêncio

e você não descobriu

o porquê, nem o quê.

 

Seu canhão pessoal tem a todos por mímicos – você é imune.

Você está no meio de tudo.

Seu metrônomo puro sangue, seu coração, sua força…

 

De nada te serve entortar um facho de luz

como quem forja uma espada com os olhos.

Nunca Houve Coisa Mais Bela

Felipe Alves

Felipe Alves tem 24 anos, é comunicólogo com atuação na produção de eventos culturais desde 2014 e fotógrafo por hobbie. Publica textos e livros de forma independente na web desde 2015.

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Como me esforço para não reparar. Aí, bem no ponto! Vamos seguir pela travessa, bem de va ga ri nho. Puxando a fumaça soltando em direção à lua. Veja ela e traseiro, do canto, rebolando com a saia xadrez, fingindo que existe outra coisa pra se olhar. Risos. Deus me tenha! De tudo, não deixo de ser o sacana, o esnobe filho da puta a passear. Cigarro na boca, vinho na mão. Desgosto. Caminho livre, farol verde, passo lento, fingindo não reparar. Ela vem, atravessa, começa a olhar. E se eu for um estuprador, ela pensa, ou no mínimo deve pensar. Dodói da cabeça aos pés, mas não ao ponto de incomodar, que o diabo me permita uma pergunta rápida, cordialidade ao acaso, olhar fixado, passada da mão no cabelo, deslizar do lábio inferior, ou da licença, por favor, que é isso, pode me indicar onde fica o Shopping, o metrô, o bar mais próximo, pois estou morrendo por uma cerveja, uma pinguinha, uma carreira de pó qualquer. Um rato atravessa meu caminho, ó meu deus! A diferença entre a sarjeta e o laboratório é a ausência de um propósito, como dizem por lá, naqueles canais cultos. Meu amigo, Crusoé, terapeuta de casais, solteirão, barrigudo, falido e viciado em codeína, sempre me diz para não buscar mulher que se ande depois das onze pelos cantos da República.